quarta-feira, agosto 17, 2011

~ O brilho das fotos.


Agora que estou sozinha nessa casa enorme, é que me dou conta do quanto estou sozinha. Minha vida não é bem diferente assim, pelo menos como estou imaginando que vocês estão pensando, da vida das pessoas “comuns”, eu apenas tive o azar de perder meu marido assim que completei cinco anos de casada e hoje, minhas duas filhas não moram mais comigo. Lembro-me quando compre essa casa, tenho que confessar que comprei exatamente por este quarto, por essas janelas, gostei da vista por cima das árvores, nem conto a vocês como é essa visão no outono, até porque não acreditariam. Adorava vir neste quarto com o Eduardo e ficar olhando nossas lindas menininhas dormirem tranqüilas, como se nada e nem ninguém pudesse atingi-las nesse lugar. Nas noites que elas acordavam assustadas chorando, levantávamos para acalmá-las, então nos sentávamos no chão de madeira e começávamos a brincar com elas, tenho que confessar que me tornava criança também e, quando olhava para o rosto do Eduardo, parecia que tudo aquilo era para sempre, todo aquele momento.

Não guardo mágoas ou tristezas, como todo mundo as minhas lindas menininhas cresceram também, arrumaram seus empregos, seus maridos e se mudaram. Eduardo não está mais comigo, porém sei que olha por mim lá do nosso cantinho, para o qual irei assim que minha hora também chegar. Hoje, vendo essa casa, mais não para alguém que irá demoli-la ou fazer dela um local ruim, vendo para outra família, que virá nesse mesmo cômodo da casa e olhará para suas filhas da mesma forma que eu e Eduardo olhávamos, e da mesma forma que nos apaixonávamos a cada dia. Hoje, espalho todas as fotos que tirei no chão vazio, vazio de móveis, mas repleto de lembranças, de amor, de alegria, os reais sentimentos vistos nas fotos, no ursinho de pelúcia que minha filha me entregou para que eu desse a minha netinha que está a caminho para esse mundo de transformação. Vejo nas fotos toda a dedicação, toda a felicidade, toda a infância que construímos e que vivenciamos, vejo a imensidão dessa casa pelas paredes, mais sinto todo o universo nos momentos mostrados pelo brilho de várias fotos.

- Pauta para o Bloínquês

+ 82ª edição visual.

Nenhum comentário:

Postar um comentário